domingo, 29 de setembro de 2013

Tropicaos

Árvores não tão altas,
musgo não tão verde.
pedras imperiosas.
feixes de luz por frestas de portas-folhas e lama
Pequenas subidas, alguns barrancos...

Embrenho-me
com galochas azuis e peixeira na mão
Num descaminho denso
que de qualquer forma impede.
(Digo qualquer forma, pois o fim transforma-se.)

Até agora - ainda que pensando
Arfava e sentia o ar frio em suor
e me subia a cãibra quente em bela dor.
Ah! e os zumbidos surdos que saem das frutas podres roxas, vinho e mostarda

Mas a incerteza que esse novo fim provoca me desnorteia e tenho me perdido constantemente,
Me esqueço porque continuo, durmo em cavernas escuras e daqui escrevo sob um recente luar:

de que serve essa etnografia úmida, se cada palavra revisada  é logo esquecida e essa ajuda repentina não sabe ao que veio e porque quer estar?
Para quê descrições, se afinal o que importa  é a forma, a fonte, o corpo.
De que servem correções ortográficas e interrogações ao pé das páginas
Sem comentário algum?

Continuo a escrever,
mas não pra você.

domingo, 15 de setembro de 2013

Debaixo d'água

cada palavra é uma facada.

abrir a boca é um rasgo e escrever um corte.
cada parágrafo é um recuo.
mas dessa distância só pode dizer você.
eu preciso arrancar tufos de cabelo para falar das mais simples dores de cabeça.

se uma certeza surge, meu corpo inteiro vive e meu coração rapidamente a amarra junto a ele. soltá-la - presenteá-la! - seria perder de vez toda a sua poesia!

a cada passo lento ela pode aparecer, e quando meu pé se afasta, o seu, pronto, vem.
nisso, me perco no ritmo e tropeço envergonhada.
e aí é como se toda a música me desencantasse...
e todo o silêncio do mundo quisesse me penetrar.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Sinal da rua jardim botânico

a camisa roxa
sob cabelos curtos

que ocultam o corpo
a amadurar
os anos que andam
e os carros parando,
te abrem caminho,
mas queres ficar

pior, na verdade,
não vês que precisa
amar tua idade
e dela gozar
ragar tuas roupas
e nua entregar-se
que nem uma garça!
que voa pro mar


quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Perdão

Busco as margens, sempre
mas a correnteza é forte e me deixo rodopiar
por seus espaços e tempos inesgotáveis, entre
suas vontades e aonde quer me levar.
Me arranho em galhos e me agarro em troncos,
buscando nada, e talvez nadar.

Nem me lembro do primeiro dos mergulhos.
Não é como se fosse consciente...
É apenas necessário, quase vital, 
inundar meu corpo, seco e vazio.

Dessa vez, pedi que também participasse,
afogando-me, quase chegando, ali mesmo.
Precisava ver as raízes tortas dos mangues
lamacentos, inalar seu cheiro podre debaixo
d'água, sentir-me um caranguejo de casco 
quebrado quase morto entre carniceiros aquáticos 
que engolem tudo isso que é 
fétido e intragável do esgoto.

E sentir a dor de quem sente, agonizando até
quase finalmente sufocar
Para enfim agarrar tua mão que me empurrava
e pô-la em meu peito sem saber porque
e olhar tua cara de: satisfeita? que me fitava.

Deitei no chão da pequena embarcação
bamboleante sentindo as facadas do ar
entrando em meu peito e a náusea...
Fechei os olhos e desmaiei

Acordei em terra com o corpo nu quase
pálido sentindo o sol como há muito
não queimava e uma vontade enorme de 
fazer xixi.

Ao meu lado, teu barquinho atracado
e vazio, com tuas roupas deixadas.

Sento, olho o horizonte no mar
sinto como nunca essa espera.
Ainda aguardo-te chegar e a
única coisa que resta é rezar para
que com ela não te encantes...