domingo, 28 de setembro de 2014

Mulher vestida de gaiola

Parece que vives sempre
de uma gaiola envolvida,
isenta, numa gaiola,
de uma gaiola vestida,
de uma gaiola, cortada
em tua exata medida
numa matéria isolante:
gaiola-blusa ou camisa.
E assim como tu resides
nessa gaiola, cingida,
o vasto espaço que sobra
de tua gaiola-ilha
é como outra gaiola
igual que o mar: sem medida
e aberto em todos os lados
(menos no que te limita).
Pois nessa gaiola externa
onde tudo tem cabida,
onde cabe Pernambuco
e o resto da geografia,
três bilhões de humanidade
e até canaviais de usina
sei que se debate um pássaro
que a acha pequena ainda.
Tal gaiola para ele
mais do que gaiola é brida;
como cárcere lhe aperta
sua gaiola infinita
e lhe aperta exatamente
por essa parede mínima
em que sua gaiola-mundo
com a tua faz divisa.
Contra essa curta parede
entre ti e ele contígua,
que te defende e para ele
é de força, se é camisa,
todo o dia se debate
a sua força expansiva
(não de pássaro, de enchente,
de enchente do mar de Olinda).
Por que ele a quem sua gaiola
de outros lados não limita,
deseja invadir o espaço
de nada que tu lhe tiras?
por que deseja assaltar
precisamente a área estrita
da gaiola em que resides,
melhor: de que estás vestida?

sábado, 27 de setembro de 2014

Primavera nos dentes

Tomei coragem de desistir da poesia. Pelo menos por hora. (Claro). Na verdade estava se tornando uma obsessão tão febril que me paralisou. Antes de escrevê-la deveria haver um porquê, e foi isso mesmo que se perdeu.
Não sei, depois que roubaram minha bolsa com tudo dentro e o caderninho que você mandou comprar, meio que decidi escrever aqui. Sempre odiava tudo que escrevia no minuto seguinte, mas depois quando folheava as páginas, via muita sinceridade e sentimento nas minhas palavras. No final das contas, fiquei triste de ter perdido todos aqueles registros - e as minhas senhas do banco também estavam ali.
Mas, não sei por que, às vezes a gente escreve para que o outro sinta, mas não entenda diretamente do que se trata. E é só nisso que consiste a poesia? Tentar explicar e entender o mundo por códigos?
Ou não tem mistério algum? Estava ficando com um medo enorme de escrever porque sabia que não seria bonito e verdadeiro como antes... Por ter ficado meio sem ambições, por você, nesses últimos tempos e tudo mais... Por não estar satisfeita com quem eu era e o que fazia (com apenas vinte anos!). Mas escrever talvez não passe de justamente viver isso. Viver a fossa que for, sem "inventar moda", como diria minha mãe quando eu era criança e queria brincar no trepa trepa.

Tem até naquele livro que você me emprestou, a melhor frase - daquelas de efeito, as máximas, que tanto odiamos, mas são boas - é claro que você lembra, pois inicia o conto: "Un poeta lo pode soportar todo." E depois ainda melhora com "Lo que equivale decir que un hombre lo puede soportar todo." Depois de ler e pensar, por fim, vem: "Pero no es verdad: son pocas las cosas que un hombre puede soportar. Soportar de verdad. Un poeta, en cambio, lo puede soportar todo. Con esta convicción crecimos. El primer enunciado es cierto, pero conduce a la ruina, a la locura, a la muerte."