sábado, 27 de setembro de 2014

Primavera nos dentes

Tomei coragem de desistir da poesia. Pelo menos por hora. (Claro). Na verdade estava se tornando uma obsessão tão febril que me paralisou. Antes de escrevê-la deveria haver um porquê, e foi isso mesmo que se perdeu.
Não sei, depois que roubaram minha bolsa com tudo dentro e o caderninho que você mandou comprar, meio que decidi escrever aqui. Sempre odiava tudo que escrevia no minuto seguinte, mas depois quando folheava as páginas, via muita sinceridade e sentimento nas minhas palavras. No final das contas, fiquei triste de ter perdido todos aqueles registros - e as minhas senhas do banco também estavam ali.
Mas, não sei por que, às vezes a gente escreve para que o outro sinta, mas não entenda diretamente do que se trata. E é só nisso que consiste a poesia? Tentar explicar e entender o mundo por códigos?
Ou não tem mistério algum? Estava ficando com um medo enorme de escrever porque sabia que não seria bonito e verdadeiro como antes... Por ter ficado meio sem ambições, por você, nesses últimos tempos e tudo mais... Por não estar satisfeita com quem eu era e o que fazia (com apenas vinte anos!). Mas escrever talvez não passe de justamente viver isso. Viver a fossa que for, sem "inventar moda", como diria minha mãe quando eu era criança e queria brincar no trepa trepa.

Tem até naquele livro que você me emprestou, a melhor frase - daquelas de efeito, as máximas, que tanto odiamos, mas são boas - é claro que você lembra, pois inicia o conto: "Un poeta lo pode soportar todo." E depois ainda melhora com "Lo que equivale decir que un hombre lo puede soportar todo." Depois de ler e pensar, por fim, vem: "Pero no es verdad: son pocas las cosas que un hombre puede soportar. Soportar de verdad. Un poeta, en cambio, lo puede soportar todo. Con esta convicción crecimos. El primer enunciado es cierto, pero conduce a la ruina, a la locura, a la muerte."

Nenhum comentário:

Postar um comentário